quinta-feira, 1 de abril de 2010

12. Redenção


Ele entrou no bar meio cambaleando, mas me pareceu um pouco ensaiado ou forçado. Ou os dois. Ele está abraçado a uma loira que tem cara de puta da Augusta. Pobre garota... Ele olha em volta e me vê, ele vem em minha direção.
            —Oi! — Ele diz com aquele sorriso besta na cara enquanto se senta ao meu lado no balcão.
            —Esse lugar está ocupado. — Eu digo sem olhar pra ele.
            —Jura? Quem vai comer meus restos hoje?
            Fico horrorizada por um segundo. Por mais grosseiro que ele fosse, eu nunca o havia visto desse jeito. Quando finalmente olho diretamente pra ele, vejo o pó branco ainda preso nas narinas dele e suas pupilas dilatadas.
            —Ah! Essa aí é aquela que você tanto fala? — A Loira pergunta.
            —É, é ela. Agora que eu a encontrei, pode vazar.
            —Como é? — Ela me pareceu genuinamente ofendida.
            —Você me ouviu. Desinfeta. — Ele diz sem tirar os olhos de mim.
            —Ela seu estepe ou algo do gênero? — Eu pergunto enquanto a Loira sai do bar com passos largos e nariz empinado.
            —Algo do gênero.
            Barba por fazer, coca nas narinas, hálito impregnado por café, cigarros e álcool. Ele sempre teve uma inclinação para a autodestruição, mas eu sempre achei que fosse mais uma pose do que algo concreto.
            —Voltou a usar? — Eu pergunto depois dele pedir uma bebida e apontando para o nariz dele.
            Ele permanece em silêncio por um tempo, bebe um pouco de seu Campari recém chegado com um olhar distante até finalmente se virar para mim.
            —Você estava blefando quando disse que esse lugar estava guardado, não estava?
            —Responde a minha pergunta e eu respondo a sua. — Eu retruco sem pensar muito.
            —O pó me ajuda a escrever, extrai minha inspiração.
            —Não parece estar funcionando, não vejo um texto seu há meses.
            —Talvez eu só não tenha te mostrado, baby.
            —Talvez você só não tenha escrito nada. — Eu dou mais um gole no meu Martini. — E sim, eu estava blefando.
            —Cadê aquele cara por quem você me trocou?
            Um frio percorre minha espinha. Eu sabia que iríamos chegar nesse ponto.
            —Se bem me lembro, foi você quem me abandonou. — Eu digo com vontade de chorar. Mas não vou chorar. Não vou dar esse gostinho a ele.
            —Touché. — Ele diz com um sorriso triste na cara antes de beber mais.
            —Ele me largou.
            —Já tentou ser a que chuta ao invés de ser a chutada?
            —É por comentários como esse que não estamos juntos.
            —Somado a sua falta de senso de humor e algumas ironias do destino.
            Ser abandonada do nada por tentar fazer dele uma pessoa melhor não é uma ironia do destino! Eu me seguro pra não verbalizar isso. O erro foi todo dele.
            —Sabe, ele me largou porque eu nunca superei sua perda. — Merda, eu não deveria ter dito isso. Agora ele vai ficar se achando o máximo. Mas não, ele não começa a se gabar, ele simplesmente diz:
            —E eu parei de escrever por ter perdido minha musa.
            Tenho que admitir que o idiota ainda sabe me agradar. Fedendo a álcool e travado de cocaína, ele sabe me agradar.
            —Olha, eu estou escrevendo um livro. Como nos velhos tempos. Algumas garrafas de vinho, cigarros, luz de velas, minha velha máquina de escrever e meus antigos...
            —... Discos de vinil do BB King e Ray Charles. — Eu digo completando a frase dele sem querer. Como antigamente.
            —Você ainda me conhece bem.
            —Você não mudou nada, cafajeste. Sobre o que é o livro?
            —Eu sempre disse que nossa história daria um livro, não é? Mas ainda falta um final sem pontas soltas.
            —Serve esse final? — Eu digo enquanto me aproximo de seu rosto. Nós nos beijamos. Um som de vidro quebrando toma conta do lugar. O som é seguido por gritos. O corpo do meu escritor cai na minha frente depois de nosso último beijo. A bala o perfurou no coração. No coração que pertencia a mim. Olho para os lados, ainda atordoada e vejo aquele por quem troquei meu escritor com a arma na mão, sendo imobilizado pelos seguranças.
            O livro foi concluído numa tragédia.

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